sábado, 6 de outubro de 2012

Estilos cognitivos, problemas matemáticos e Deus

Autor: Daniel Gontijo

Recentemente, li um estudo interessante cujos resultados demonstram uma relação significativa entre o desempenho em problemas matemáticos e a convicção com que se crê em Deus (Shenhav, Rand e Greene, 2011). Em vez de avaliarem habilidades matemáticas, a intenção dos pesquisadores foi verificar a tendência dos participantes de dar respostas intuitivas ou refletidas a questões que, na verdade, eram "pegadinhas" -- ou enunciados que induziam respostas intuitivamente atrativas, mas erradas. Essas tendências, concebidas como estilos cognitivos, explicariam a força com que as pessoas acreditam em Deus e -- como no caso da matemática -- a forma como se comportam em outros contextos da vida.


Se um bastão e uma bola custam R$ 1,10 no total, e se o bastão custa R$ 1,00 a mais que a bola, quanto custa a bola? Dez centavos costuma ser a resposta intuitiva, mas está errada. Aqueles pesquisadores distinguem o julgamento intuitivo -- que envolve a resposta R$ 0,10 -- do julgamento refletido da seguinte maneira:

Por julgamentos intuitivos nós queremos dizer dos julgamentos feitos com pouco esforço e que são baseados em processos automáticos [ou instintivos], e por julgamentos refletidos nós queremos dizer dos julgamento em que o juiz [ou a pessoa] faz uma pausa para examinar criticamente os ditames de sua intuição, permitindo então a possibilidade de se chegar a uma conclusão [...] contraintuitiva (Shenhav, Rand e Greene, 2011).

Então, se pararmos por um momento para rever a questão, analisando cuidadosamente os dados e o enunciado, chegamos à contraintuitiva reposta de que a bola custa R$ 0,05. Notavelmente, as pessoas que deram respostas mais intuitivas no Cognitive Reflection Test (CRT) relataram ser mais crédulas na existência de Deus do que as que deram respostas mais refletidas -- e essa relação permaneceu significativa independentemente de idade, escolaridade e renda mensal.

Alguns críticos poderiam questionar se esses achados não podem ser explicados por outras variáveis que não pelos estilos cognitivos, como por exemplo pela personalidade e/ou inteligência dos participantes. Em um estudo complementar, os pesquisadores demonstraram que não: inteligência e personalidade não interferiram nos resultados. E, ainda no primeiro estudo, foi investigado se a influência religiosa que os participantes tiveram durante a infância estaria relacionada com a frequência de suas respostas intuitivas no CRT. Novamente, os dados não suportaram essa hipótese.

Para dar força à ideia de que os estilos cognitivos explicam ou causam a crença em Deus, os pesquisadores delinearam um terceiro estudo, mas do tipo experimental. Divididos randomicamente em quatro grupos, os participantes foram solicitados a recordar e escrever 1) situações em que agiram refletidamente, obtendo bons resultados, 2) situações em que agiram refletidamente, obtendo resultados ruins, 3) situações em que agiram intuitivamente, obtendo bons resultados ou 4) situações em que agiram intuitivamente, obtendo resultados ruins. Após passarem por um desses quatro tipos de tarefa, eles preencheram a escala de religiosidade usada nos estudos anteriores. Como resultado, o relato da força ou convicção com que se acredita em Deus foi influenciado pelo tipo de contingência previamente operada.(1) As pessoas que descreveram situações em que obtiveram bons resultados ao agir intuitivamente ou que obtiveram resultados ruins ao agir refletidamente alegaram crer mais em Deus. Alternativamente, os que descreveram bons desfechos ao agir refletidamente ou maus desfechos ao agir intuitivamente reportaram menos credulidade. Assim, os pesquisadores concluíram que "a indução de mentalizações [mindsets] favorecendo a intuição (ou contrárias à reflexão) aumentaram significativamente o autorrelato da crença em Deus".

Lembrar da eficácia passada da intuição, ou da ineficácia da reflexão, aumenta a confiança com que se crê em Deus.

Discutindo e teorizando

Pelos resultados dessa pesquisa, seus autores concluíram que a crença em Deus e a maneira pela qual as pessoas encaram certas questões matemáticas são influenciadas, e quiçá causadas, por seu estilo cognitivo (mais intuitivo ou mais refletido). Interessantemente, a confiança na crença em Deus mostrou ser um fenômeno não imutável, mas experimentalmente modificável.(1)

Com base em outros estudos, Shenhav, Rand e Greene hipotetizam que a crença em Deus pode ser intuitiva por razões relacionadas a características mais gerais da cognição humana, as quais embasariam também as crenças no dualismo e no antropomorfismo. Esses processos intuitivos e automáticos poderiam, ao longo da vida, ser amenizados ou substituídos por processos refletidos e controlados. A despeito da coerência (teórica e empírica) dessas hipóteses, os autores não descreveram quais seriam as "características mais gerais da cognição humana" alegadas, bem como pouco se aventuraram a especular sobre que processos produzem os estilos intuitivo e refletido. Mas eu vou me arriscar a dizer algo sobre este último ponto.

É bem provável que a cultura e as experiências individuais favoreçam ou dificultem o desenvolvimento, a manutenção e a prevalência de um ou outro daqueles estilos. Basicamente, diferentes culturas, famílias e pares podem fornecer consequências que reforçam ou enfraquecem os comportamentos intuitivo e refletido. Em seu famigerado O Mundo Assombrado pelos Demônios, Sagan (1996/2006) assevera que as escolas deveriam ensinar não só o que a ciência já descobriu, mas também como a ciência funciona. E ensinar o método científico corresponde, em parte, a ensinar o ceticismo e a estimular a pesquisa e a admiração pelos fenômenos naturais. Como consta no prefácio de seu livro, questionar e admirar a natureza foi algo que Sagan aprendeu não na escola, mas principalmente em casa -- independentemente do fato de seus pais serem religiosos e pouco instruídos.

Ensinar o ceticismo não é simplesmente uma questão de "dar um empurrão" para que a reflexão e o questionamento apareçam; mais do que isso, é prover consequências que favoreçam seu desenvolvimento e manutenção. Pelo princípio da seleção por consequências,(2) deduzo que os indivíduos menos crédulos passaram consistentemente por situações nas quais questionar, desconfiar e testar lhes "favoreceu" (por exemplo, se livraram da coerção, do engano e da ignorância), e que, pelo caminho alternativo, os mais crédulos se beneficiaram com frequência por agir intuitivamente, confiar nas autoridades e se contentar com  respostas mais naturais e confortáveis. E é até possível, como aconteceu com Sagan -- e com alguns céticos com quem já conversei sobre o assunto --, que as "contingências pró-ceticismo" sejam naturalmente arranjadas num seio familiar cujos membros são religiosos.

Mas o que interpretar da correlação entre o desempenho em pegadinhas de matemática e a crença em Deus? Meu palpite é simples, senão óbvio: essas duas situações induzem respostas funcionalmente equivalentes,(3) as quais foram concebidas como os estilos refletido e intuitivo. Em outras palavras, parece haver uma tendência de sermos menos ou mais reflexivos ou intuitivos quando indagados sobre Deus e quando requeridos a solucionar problemas matemáticos "suspeitos". Contudo, dizer que agimos assim por causa de um estilo cognitivo não nos responde por que, naquelas ocasiões, fazemos julgamentos refletidos ou intuitivos. A explicação para o desenvolvimento, a manutenção e a prevalência de nossos julgamentos não está em nossos cérebros ou mentes, mas possivelmente nas variáveis ambientais a que fiz alusão anteriormente.(4)

E o que dizer sobre o "efeito de priming",(1) ou por que "a indução de mentalizações [mindsets] favorecendo a intuição (ou contrárias à reflexão) aumentaram significativamente o autorrelato da crença em Deus"? Partindo desse resultado, é razoável supor que as "mentalizações" e a crença em Deus compartilham certas características. Pode-se supor que a mera lembrança da eficácia de uma intuição induz o aparecimento de respostas dessa classe. Os pesquisadores partiram disso para falar de "estilos cognitivos", e os behavioristas não têm motivo algum para enxergar algo mais que operantes.

No mais, deduzo que, se o refletir/questionar for um comportamento consistentemente reforçado ao longo da vida, é possível que ele não apareça apenas em contextos interpessoais (em que as pessoas podem estar enganadas ou querer nos enganar) ou escolares (em que podemos ser treinados para detectar pegadinhas em provas), mas também quando nos deparamos com certas ideias metafísicas. Sagan (1996/2006) afirma que o cético é um indivíduo que está equipado com um "kit de detecção de mentiras", e este kit pode aparentemente ser utilizado em enumeráveis circunstâncias cotidianas -- desde que as respostas que o compõem sejam reforçadas o suficiente para se generalizar.


Notas

(1) O priming é um "efeito experimental que se refere à influência que um evento antecedente (prime) tem sobre o desempenho de um evento posterior (alvo)" (Wikipsicolinguística). Para ler um pouco sobre o assunto, sugiro um passeio pelo blog do André Rabelo.

(2) Tal como ocorre no nível da espécie, em que indivíduos levemente modificados (pela variação genética) podem ser selecionados por seu êxito reprodutivo, "estímulos consequentes à ocorrência de uma resposta explicam a mudança na probabilidade de ocorrência futura de respostas" desse tipo (Darwich e Tourinho, 2005). Em outras palavras, as consequências de certas repostas (que variam) as selecionam (no sentido de torná-las mais prováveis) ou as colocam em extinção (no sentido de torná-las menos prováveis). Se a consequência de uma resposta aumentar sua manutenção e/ou frequência, ela é chamada reforçadora; se uma consequência diminuir sua manutenção e/ou frequência, punitiva.

(3) Respostas funcionalmente equivalentes são aquelas que se assemelham quanto às consequências que produzem (e pelas quais são mantidas). Por isso, podemos concebê-las como respostas de um mesmo tipo ou de uma mesma classe.

(4) Questões sobre o desenvolvimento são melhor respondidas por processos que envolvem a relação de um indivíduo com seus variados ambientes (interpessoais, educacionais etc.), podendo também a filogênese e a variabilidade genética ser considerados. Para críticas sobre a limitação com se explicar fenômenos comportamentais exclusivamente por variáveis internas (mentais e encefálicas), ver "O cérebro e o behaviorismo radical" (Gontijo, 2012).

Referências
  • Darwich, R. A., & Tourinho, E. Z. (2005). Respostas emocionais à luz do modo causal de seleção por consequências. Revista Brasileira de Terapia Cognitiva e Comportamental, VII, 107-18.
  • Sagan, C. (1996/2006). O Mundo Assombrado pelos Demônios: a ciência vista como uma vela no escuro. São Paulo: Companhia das Letras.
  • Shenhav, A., Rand, D. G., & Greene, J. D. (2011). Divine intuition: Cognitive style influences belief in God. Journal of Experimental Psychology: General. Advance online publication. doi:10.1037/a0025391

5 comentários:

  1. Muito bom Daniel, um verdadeiro achado!!!
    Vou sitar ele no meu TCC!!! Valeu ;D

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  2. Sensacional, página marcada nos favoritos!

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  3. Alexandre Dittrich10 de outubro de 2012 18:34

    Ótimo texto...

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  4. Bastante interessante o texto. Confesso que, ainda que faça todo sentido nesse contexto, me incomoda a ideia que questionar a existência de deus e resolver um problema matemático de um jeito ou de outro sejam classes funcionalmente equivalentes. Não sei bem o porquê, mas me incomoda. Talvez exista outra explicação, como o fato de que ambas classes tendem a ser geradas no mesmo tipo de ambiente. Mas enfim, podem se fato ser um operante de ordem superior do tipo "questionar", ou algo assim.

    Hoje estava lendo sobre comportamentos governados por regras x comportamentos controlados por contingências, e acho que tem um pouco a ver. O interessante dessa discussão (das regras) é que pode haver prejuízo tanto em seguir regras a ponto de tornar-se insensível a contingências, como há prejuízo no não seguir regras pelo fato de regras muitas vezes sinalizarem reforçadores sutis ou a longo prazo, que sozinhos controlariam o comportamento de forma muito deficiente. Talvez o operante "questionar" esteja ligado a um tipo de comportamento menos governado por regras.

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  5. Sim, Nicolau, a ideia é a de que o "questionar/desconfiar" seja um operante bem generalizado. Se eu não me engano, esse é um dos comportamentos que compõem o que os cognitivistas chamam de "metacognição", ou os comportamentos privados que regulam ou monitoram outros processos/comportamentos. Assim, o monitoramento das respostas intuitivas, no sentido de questionar sua "validade", "veracidade" ou "precisão", seria importante para sua manutenção ou "correção", e isso incluiria tanto respostas relacionadas à matemática como as relacionadas a Deus. A propósito, eu aposto mil fichas que os ateus se diferenciam mais dos religiosos em seus comportamentos "metacognitivos" do que em sua inteligência.

    Sobre o questionar não ser governado por regras, tenho lá minhas dúvidas. Eu já me peguei várias vezes lembrando dos ensinamentos de Sagan sobre a falibilidade das autoridades, e a partir de então deixando de crer sem ressalvas em resultados de pesquisas e no que dizem os pesquisadores. "As pessoas eventualmente se enganam ou podem querer nos enganar" é uma regra que acho interessante. A propósito, será que os pesquisadores do estudo que discuti no texto queriam nos enganar ao mostrar só UMA PARTE da escala que representa, no gráfico, a força da crença religiosa? Se mostrassem a escala inteira, não teríamos uma outra impressão do efeito de priming? Melhor ainda, a diferença de mais ou menos UM PONTO nessa escala (de 0 a 10) é o suficiente para dar força à ideia de que o operante "intuir" é a base da crença em Deus?

    Abraço!

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