domingo, 19 de agosto de 2012

Nota sobre nossa mesa redonda do XXI Encontro da ABPMC

Autor: Daniel Gontijo

No dia 17 de agosto, Pedro Sampaio, Júnio Rezende e eu compusemos a mesa redonda intitulada "Comportamento Religioso: Aspectos Teóricos, Metodológicos e Sociais" no XXI Encontro da Associação Brasileira de Psicologia e Medicina Comportamental (ABPMC). A sala encheu mais do que esperávamos, e a maior parte dos feedbacks nos deixou efusivamente animados para seguir adiante com a complicada e polêmica tarefa de compreender o comportamento religioso. Apesar disso, algo sobre o conteúdo das apresentações e sobre a impressão que esse conteúdo deixou em algumas pessoas merece ser esclarecido.

Da esquerda para a direita, Alexandre Dittrich (coordenador), Pedro Sampaio, Daniel Gontijo e Júnio Rezende.
Em primeiro lugar, estamos dando os passos iniciais em nossos estudos. Embora venhamos debatendo sobre o comportamento religioso há mais de um ano, sobretudo em nossos encontros mensais de domingo, apenas recentemente estamos querendo dar uma cara de projeto às nossas ideias. Não sabemos se ou quanto isso vai funcionar, mas já vislumbramos boas possibilidades pela frente. Assim, o que apresentamos é apenas um ensaio daquilo que imaginamos ser um bom caminho de pesquisa, e não qualquer conclusão a que teríamos chegado após uma longa e custosa jornada de elucubrações. A decisão de levarmos esse ensaio para a ABPMC serviu, como esperávamos, para começarmos -- a partir de críticas, elogios e sugestões -- a modelar nossas ideias e os rumos que podemos tomar.

A resposta de algumas pessoas às apresentações é o segundo ponto em que eu gostaria de tocar. Afora os elogios e boas sugestões que recebemos, ouvimos dizer que algumas pessoas se sentiram incomodadas, para não dizer indignadas, com parte do conteúdo exposto. Isso já era esperado por nós. A tentativa de se explicar a gênese da religiosidade através de processos naturais, isto é, ao conceber o comportamento religioso como um conjunto de fenômenos que provavelmente não possui qualquer ligação com um mundo divino ou sobrenatural; o dado, e não a especulação, de que medidas de inteligência variam negativamente com o nível de religiosidade; e a constatação de que o ateísmo está em crescimento exponencial, o que nos leva a pensar sobre a importância de uma espécie de planejamento social secular -- isto tudo pode ser difícil de engolir e digerir! Contudo, acredito que nós não fomos em qualquer momento desrespeitosos, e o comentário de que "Eles estão [ou seja, nós estamos] querendo promover o ateísmo" passou bem longe do objetivo dos nossos trabalhos.

Se, ao longo das apresentações, despertamos nos presentes a ideia de que o comportamento religioso pode, senão merece, ser estudado como qualquer outro fenômeno comportamental, minha avaliação é a de que o objetivo central daquela mesa redonda foi conquistado. E, a despeito das impressões errôneas e desacreditadas que parecem ter suscitado em alguns, espero que possamos seguir adiante.

13 comentários:

  1. Vish, galera.

    Não vi todas as apresentações (saí de outra mesa, cheguei no fim da do Junio e peguei a do Daniel, a última, entrando na cara dura com a sala cheia), mas peguei uma parte dos comentários finais e percebi que de fato o tema é espinhoso e teve gente que nem curtiu a ideia.

    Eu tenho discordâncias e concordâncias com coisas que foram apresentadas, apesar de ser ateia e a princípio não ter motivo pra ficar diretamente ofendida.

    Uma dica, ou apontamento, sei lá, é que acho que ficou essa impressão porque as apresentações de vocês são coesas e duas das três falavam de ateísmo. Como tem mais gente estudando comportamento religioso, uma boa teria sido agregar pessoas que apresentaram sobre isso numa próxima mesa e que falam disso de forma mais geral. Colocar coisas sobre compto. supersticioso, cultura etc. na mesa. Dá espaço pra quem sabe botar a polêmica pra funcionar também entre a mesa (polêmica sempre vai ter, mamilos!).

    Daniel, já elogiei a sua que vi. Muito legal ver essas coisas sendo discutidas, justamente pelo clima de tabu.

    Abs

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Valeu pelas dicas, Aline! Até foi contemplado bastante o comportamento supersticioso na apresentação do Pedro, mas concordo que pouco foi dito sobre o comportamento religioso como um tipo de prática cultural mantida por certos produtos/consequências. Podemos avaliar a possibilidade de falar mais sobre isso numa próxima ocasião, convidando talvez uma quarta pessoa para abordar o tema.

      Um abraço e obrigado pelas palavras, querida!

      Excluir
  2. Eu gostei bastante da mesa, achei legal a forma como as três apresentações se complementaram, e no geral as contribuições foram enriquecedoras. De fato é um tema que precisa ser discutido, e os porquês disso foram bem argumentados no início da exposição do Pedro.

    Entendo que o objetivo não era "promover o ateísmo", mas ao meu ver dois elementos da apresentação acabaram por fortalecer um pouco essa ideia: o primeiro foi a ênfase que o Pedro deu na gênese do comportamento religioso como comportamento supersticioso (que é o que eu gostaria de discutir em algum momento), o que não deixa de dar um teor negativo às práticas religiosas de forma geral; o segundo foi a associação que o Daniel fez do ateísmo com comportamentos de questionamento e investigação, o que implicou na ideia de que "o ateu é aquele que se questiona, o religioso é aquele que se conforma", e mais uma vez pareceu querer emburrecer os religiosos.

    É claro que isso não desqualifica o mérito das ideias, e imagino que é inevitável falar sobre uma posição ideológica defendida pelos autores de forma completamente idônea. Eu ouvi conversas nos corredores de gente falando "eles estavam defendendo o ateísmo!". Pelos comentários e perguntas feitas pelo público na própria sessão, vejo que as pessoas têm uma dificuldade imensa em encarar o assunto com o tipo de objetividade que a ciência requer... e esse provavelmente vai ser sempre um obstáculo para vocês que querem falar disso (embora algo me diga que é um obstáculo mais encorajador do que desanimador para vocês). Mas parabéns a vocês por terem conseguido dar um tratamento autenticamente analítico-comportamental ao assunto!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Pois é, Nicolau, e seus comentários fizeram-me lembrar de um trecho do livro "O Mundo Assombrado pelos Demônios", do Sagan (1996/2006):

      "Todos nós acalentamos as nossas crenças. Em certo grau, elas definem o nosso eu. Quando aparece alguém que desafia o nosso sistema de crenças, declarando que sua base não é suficientemente boa -- ou que, como Sócrates, faz perguntas embaraçosas em que não tínhamos pensado, ou demonstra que varremos para baixo do tapete pressupostos subjacentes de importância capital --, tal fato se torna muito mais do que uma busca do conhecimento. Nós o sentimos como um ataque pessoal" (p. 337).

      Acho que algo por aí pode ter acontecido: ouvir que há muito de comportamento supersticioso nas religiões e que os céticos são, conforme os autores que citei, pessoas desconfiadas e exploradoras pode soar como uma afronta para algumas pessoas. "Estão querendo igualar minhas orações aos comportamentos supersticiosos de pombos e ratos?" e "Estão dizendo que eu sou ingênuo ou que eu não pesquiso o bastante sobre minha religião?" podem ser perguntas naturalmente levantadas. Acho que quase ninguém gosta de se sentir obtuso, enganado ou preguiçoso, e talvez algumas pessoas tenham levado as coisas para esse lado.

      Mas, como você falou, teremos que conviver com esses entraves. Os feedbacks são importantes para nos atentarmos sobre COMO dizer o que queremos ou precisamos dizer, e não sobre O QUE podemos ou devemos dizer.

      Obrigado pelos elogios, Nicolau! Um abraço!

      Excluir
    2. Daniel, fiz algumas anotações durante sua fala, algumas delas sobre a definição que você colocou de ateísmo - que de fato é bem complexa, porque da mesma forma que uma definição ampla demais pode incluir pedras, uma definição restritiva demais pode deixar coisas de fora. Achei que sua definição deu margem a certos problemas, mas agora não lembro exatamente o quê.

      Outra coisa que pensei foi sobre a participação do "contracontrole", uma palavra que ficou jogada meio solta nos seus slides, mas acho que vale uma discussão interessante. Contracontrole usualmente se refere a comportamentos geralmente gerados por contingências aversivas/controle coercitivo, e por experiência pessoal percebo que boa parte dos céticos são pessoas que tiveram uma criação coercitiva em cima de princípios religiosos. Não sei o quão generalizável é a ideia.

      Excluir
    3. Concordo que, ao delimitarmos um pouco as coisas, outras tantas que poderiam receber um mesmo rótulo acabam ficando de fora. Como acontece com as pesquisas científicas, nas quais precisamos, para viabilizar o estudo, selecionar umas variáveis e deixar outras de fora, é um preço que a gente precisa pagar. Mas, se você puder recordar dos problemas e trazê-los por aqui, seria bem bom discuti-los!

      É bem possível que parte da gênese do ateísmo seja originada por contingências aversivas. Skinner chegou a pincelar algo a respeito no "Ciência e Comportamento Humano". É um tópico que ainda merecerá bons estudos!

      Abração!

      Excluir
  3. Então, e nem entendi muito bem que razão as pessoas (quaisquer) teriam para ficarem ofendidas.

    Da minha apresentação, ficamos sabendo de pessoas que acharam que eu disse que o comportamento religioso é "inútil", quando eu falava do imperativo darwiniano. O que eu disse foi, e com muito cuidado, que segundo esse imperativo, do Dawkins, a religiosidade seria algo destacável de um ponto de vista evolucionista porque, apesar da sua onipresença cultural, ela não produz, aparentemente, nenhuma consequência selecionável partindo da seleção natural.
    Ou seja, a princípio, que aumente a probabilidade de sobrevivência e reprodução dos indivíduos - pelo contrário.
    Só.

    Outro ponto da minha apresentação foi que aparentemente algumas pessoas acharam que reduzi o comportamento religioso ao comportamento supersticioso, quando enfatizei muitas vezes que não. Utilizei o modelo do comportamento supersticioso como coerente para explicar PARTE da GÊNESE de ALGUNS comportamentos religiosos observados em ALGUMAS culturas. Disse e repeti que isso não era nem de perto generalizável e cheguei a mencionar outros processos que poderiam estar em questão, além de outros que desconhecemos.

    Sobre a apresentação do Junio, teve gente que entendeu que ele DEFENDEU a ideia de que inteligência causa ateísmo, quando fez o EXATO OPOSTO. Primeiro, criticando o próprio conceito de inteligência; depois, demonstrando que confundem CORRELAÇÃO com uma relação de CAUSALIDADE, enfatizando o quão falaciosa é a relação.

    Por fim, o Daniel tentou, principalmente, buscar uma definição operacionalizável do que seria ateísmo. Algumas pessoas sairam com a impressão de que ele deu a entender que o ceticismo causa ateísmo, o que também é extremamente errôneo. Ele diferenciou ceticismo e secularismo de ateísmo e mais de uma vez repetiu que uma pessoa pode ser bastante cética e secular e, ainda assim, religiosa. Que o ponto para o ateísmo seria especificamente a rejeição das explicações religiosas, em especial da existência de divindades.

    Conversamos posteriormente sobre isso com algumas pessoas, dentre elas o Alexandre Dittrich, coordenador da mesa, e acho que, dado nossa imensa limitação de tempo, enfatizamos isso suficiente para nos resguardar em relação a esses equívocos. Podemos, devemos e iremos ficar atentos a como diminuir ainda mais esses equívocos, mas fico com a impressão que a história de vida dos ouvintes foi mais decisiva no que entenderam e ficaram menos sob controle de nossas falas.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Resumiu bem os pontos mais críticos, Pedro. E, entre eles, o do imperativo darwiniano me parece o que mais abriria margem para possíveis equívocos. Lembro de ter me preocupado um pouco com isso durante sua apresentação... mas você teve certo cuidado ao dizer que isso era "só" uma hipótese, que essa hipótese não é sua e que, como eu entendi, ela mais abre questões do que responde às perguntas. Logo, deveria ser uma hipótese razoavelmente inócua. Poderia...

      Excluir
  4. Sob controle das "falas em si"? ;)

    ResponderExcluir
  5. Aguardo (um tanto quanto ansiosamente), uma produção de vocês que tenha como base a apresentação, não pude ir à ABPMC infelizmente, mas nos anos de grupo de estudo abordamos esse tema por tantas vezes que ate chegue a comentar uma vez com o Pedro, enquanto eu estudava comportamentos psicóticos, que eu gostaria de em um futuro, estudar as semelhanças entre o comportamento religioso e o psicótico.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Wender, o livro "Religião, Psicopatologia e Saúde Mental", do Dalgalarrondo, fala um bocado sobre essas relações em que você está interessado. Eu recomendo!

      Abraço!

      Excluir